14/08/2016

Um dia

Ouça enquanto lê: Kodaline - Talk


   Observou o modo como ela respirava lentamente. Esticava os braços pela cama e encolhia as pernas, enquanto intercalava respirações profundas com leves suspiros. Acariciou o rosto dela, com pesar. As coisas já não eram como antes, mas nunca deixariam de ser o que foram.
   Antes de tomar uma decisão decisiva pelos dois, ele decidiu encontrar um motivo. Tentou fazer a água passar pela garganta enquanto procurava razões para aquilo tudo. O que aconteceu para que culminasse naquele momento? Sozinho, no escuro, olhando a rua deserta pela janela da sala e tentando entender o que, de fato, acontece com casais perfeitos que, de repente, perdem essa denominação.
   O fim do amor? Não acreditava nisso. Acreditava em amores que não eram amores, mas jamais em amores que deixam de ser amores. O sentimento permanece para sempre, mesmo quando acreditam que acabou. Quando é amor, é amor e ponto. Por mais que esse pensamento fosse doloroso.
   Porque amor é um bom motivo para ficar, é o que dizem.
   Talvez tenham se perdido em seus caminhos pessoais. Ela com seus projetos e ele com as suas viagens. A saudade era forte, mas quando se reencontravam sempre havia algo diferente. Uma nova mania que ele não entendia, um novo vício que ela não aprovava. Silêncios. As palavras foram parando de sair a cada retorno, até que se encontrassem no mesmo cômodo com o sentimento de que estavam sozinhos.
   Solidão era um bom motivo para ir embora, mas não era isso. Diferenças por vezes acabavam estragando tudo, mas também não era isso.
   Talvez apenas... Não fosse para ser. Não era para ser eterno, não era para ser um mar de rosas, não era para ser eles dois. Um amigo disse que a ele que amor desperdiçado dói. Mas foi desperdício? Os passeios, os filmes, as mãos dadas, as risadas, o apoio no ombro um do outro, a compreensão, felicidade, companheirismo, cumplicidade, alegria, amor. Não foi desperdício. Foram momentos vividos e aproveitados muito bem.
   Apenas não era para ser. Mas talvez fosse, um dia.
   Levantou e pegou suas coisas em silêncio. Não queria acordá-la para viverem uma nova discussão de ilusões e mentiras sobre eles mesmos. Deixou um bilhete na cabeceira, como sabia que ela gostava. Uma pequena margarida o acompanhava. A observou dormir por mais alguns segundos, antes de depositar um beijo em sua testa e deixar tudo para trás. Nunca era o melhor a se fazer, mas era necessário. E o necessário nunca era de todo bom. 
   Talvez um dia deixasse de ser necessário, e voltasse a ser.



10/08/2016

Pedras na janela

Ouça enquanto lê: Vance Joy - Riptide

   Ele batucou os dedos na mesa de madeira, sentindo uma ansiedade absurda. Não se lembrava de ter sentido isso em todos os seus míseros 17 anos. O coração batia mais rápido, suas mãos não paravam quietas, seu cabelo já revolto após tantas passadas de mão. Era isso que chamavam de ansiedade de amor? Porque se fosse, ele gostaria que diminuísse a frequência.
   Desviou o olhar da janela do quarto, que tinha vista para a casa azul ao lado. O gramado deles sempre parecia mais verde - e era, de fato. A perfeita casa americana com a perfeita família americana. O casal, a filha prodígio e um cachorro labrador. Andou de um lado ao outro do quarto e parou de frente para o espelho, olhando o próprio reflexo. Sorriu com escárnio. Era tão clichê que o garoto mais arruaceiro e desajustado do colégio se apaixonasse pela vizinha prodígio e arrumadinha.
   Engoliu em seco e o sorriso desapareceu ao lembrar da proposta da noite anterior. Ele e ela debaixo da árvore, às onze horas de uma terça-feira. Talvez devesse ter ficado quieto e guardado suas ideias insanas para si. Pela expressão que ela fez, era óbvio que àquela hora ela devia estar arrumando as suas coisas para ir mais cedo para a universidade, sem olhar para trás.
   Grunhiu e se jogou na cama, socando o travesseiro. Tão patético quanto um garotinho de 7 anos frustrado com o brócolis do almoço. O que havia acontecido com ele? Era um cara normal, que saía com algumas garotas, andava de carro, chegava bêbado em casa e ouvia reclamações da sua mãe amorosa e preocupada. Depois ia para o colégio, tentava prestar atenção na aula e apesar de não ser o melhor aluno, ainda era razoável.
   E agora, ali estava ele. Apaixonado por uma menina totalmente diferente dele, e infinitamente melhor. Ela era tudo o que ele admirava em um ser humano - e mais um pouco. Era o que ele chamava de porto seguro, seu alicerce e todas as definições românticas e patéticas existentes. Ela era tudo, e era o que ele queria pro seu futuro. Queria ser melhor para ela, queria ser dela. E já não sentia mais vergonha de admitir isso. Antes sentia, claro. Quando ainda não entendia nada. Agora ele entendia menos ainda, mas tinha os olhos mais abertos para o óbvio.
   E antes que seus olhos se fechassem novamente diante da possibilidade caótica e perturbadora da negação dela, ele levantou, vestiu sua jaqueta de motoqueiro preferida e saiu de casa confiante. Não era motoqueiro - nem ao menos tinha uma moto -, mas gostava da sensação de se sentir um. E naquele momento ele precisava.
   Deu a volta na casa dela e se esgueirou pelos fundos. Avistou a janela dela aberta e, se xingando mentalmente, catou pedrinhas para jogar na janela. Arremessou a segunda bem no momento em que ela pôs o rosto para fora. Mordeu o lábio ao ver a pedrinha acertar a testa clara da menina.
- É isso que eu adoro em você. - a ouviu dizer baixinho, com um sorriso cínico. - Tão delicado!
- Desculpe.
- O que faz aqui?
- Estou jogando pedrinhas na sua janela. Ouvi dizer que meninas boazinhas gostam disso.
- Aprendeu isso com os filmes dos anos 80?
- Sim. Eu pensei em aparecer aqui com caixas de som e uma música marcante, para ser mais romântico, mas não achei caixas de som.
- E nem o romantismo.
- Exato.
   Se olharam por alguns segundos, ambos com um sorriso contido no rosto. Ela engoliu em seco, desviando o olhar para o céu rosado por alguns segundos. O dia estava chegando ao fim, e isso era acolhedor e triste ao mesmo tempo. Ela lhe devia uma resposta.
- Eu não sei.
- Eu posso te ajudar a descobrir.
- Não, não pode... Eu tenho medo.
- Eu também tenho.
- Mas olha pra você! Com essa jaqueta esquisita e esse cabelo bagunçado. Um perfeito protagonista rebelde atrás da garota chata. O que é isso tudo?
   Ele suspirou, olhando para os próprios pés e em seguida para ela, novamente.
- Eu também não sei. Essa jaqueta nem faz mais sentido e... Pedrinhas. - ele mostrou as pedrinhas brancas em sua mão. - Na janela. Preciso fazer mais o quê para você perceber que só quero sair daqui com você e ir pra longe disso tudo?
   Ela riu, apertando os próprios dedos. Indecisão. Sempre foi ensinada a pensar com calma e clareza, sobre tudo. Mas o que fazer quando a sua mente não responde? Ela realmente só queria sair daquele lugar sem pensar, e ir para qualquer lugar. Sem destino certo.
   Ela olhou para ele e suspirou. Fechou a janela com calma enquanto via a expressão dele mudar de felicidade para tristeza em milésimos de segundos.
   Olhou para seu próprio quarto e decidiu pegar apenas o necessário. Bolsa, casaco e balas.
   Tendo tudo o que precisava, desceu as escadas correndo e saiu de casa, bem a tempo de vê-lo chegando na entrada de sua própria. Ela correu até a calçada, parando na metade do caminho a tempo de ele avistá-la, confuso.
   Ela sorriu e apertou a bolsa contra o peito, sentindo-se tímida de verdade pela primeira vez na frente dele. Era assim que as pessoas diziam se sentir quando amavam pela primeira vez?
- Vamos?
- Você é maluca.
- Obrigada pelo elogio.
   Ele riu e correram até o carro, ambos se enfiando em seus bancos rapidamente antes que o juízo atacasse suas mentes. Ele com sua jaqueta e ela com seu sorriso doce. Um dia ele lhe disse para nunca deixar a pressão superar a diversão. Talvez estivesse certo.
   Descobriria isso quando estivessem livres e bem longe dali.


Primavera



   Ela tinha um jeito especial de segurar a caneca fumegante, enquanto assoprava o líquido antes de beber. Seus olhos encontraram com os meus no meio do processo.
   Desviei o olhar rapidamente, tentando evitar um engasgo e fingindo interesse pela paisagem do lado de fora do Café. Estranho eu ter que fingir interesse pela paisagem ao redor, estando em Paris. Principalmente pela falta de interesse ser causada por uma pessoa que eu vi apenas três vezes. Ou seriam quatro?
   Na verdade, infinitas vezes se considerar a quantidade de vezes que eu me pegava observando-a. Após algum tempo, disfarçadamente levei meu olhar novamente até a figura no outro lado do local. Ela tinha um sorriso contido no rosto, enquanto olhava para a revista em suas mãos. Seu cabelo caía de forma descontraída sobre os ombros. Imaginei se eu também conseguia passar a sensação de calmaria que ela exalava por todos os poros.
   Após um tempo tentando pensar no que fazer após sair dali, decidi apenas pagar a conta e ir.
   Estranho o modo como, quando você decide espairecer a mente, os pensamentos te assolam de forma absurda. Vir à Paris foi como uma fuga. Pensei: "Por que não ir para um lugar diferente para me acalmar, após ter o coração estraçalhado pela pessoa que eu acreditava ser a certa, e se provou ser totalmente errada?"
   Quero dizer, viajar é o melhor remédio. Ver outras pessoas, outros lugares, outro céu. Eu só não considerei o fato de que viajar para um dos lugares mais românticos do mundo não fosse contribuir muito. De qualquer forma, as manhãs valiam a pena, já que eu costumava ir sempre ao mesmo Café e sempre tinha a mesma visão daquela menina. Sempre no mesmo local, aparentemente bebendo a mesma bebida.
   Sorri automaticamente eu lembrar-me da troca de olhares e do sorriso contido dela. Essas situações me divertiam. De certa forma, ajudavam a reconstruir tudo o que estava quebrado aqui dentro. Era reconfortante.
   Após andar um pouco pela cidade, resolvi voltar por um caminho diferente. Passei por um parque que estava cheio àquela hora. Por ser primavera, tudo parecia mais colorido. Os jardins eram incríveis e a atmosfera do lugar passava uma tranquilidade incrível.  Ao passar pela orla do lago, a avistei.
   Estava sentada em um banco, debaixo de uma árvore. Continuava com a mesma revista em mãos e me perguntei o que tinha de tão interessante naquelas páginas. Pensei em ir falar com ela, dei um passo e desisti. Suspirei. Desviei o olhar. Passarinhos voando sobre as árvores. Olhei em sua direção novamente.
   Ela me olhava. Sorriu levemente. Voltou a ler a revista.
   Dei um passo após o outro.
   Quando vi, estava sentado ao seu lado olhando para o lago. Ela fechou a revista e a colocou sobre seu colo, observando o mesmo cenário que eu.
   Eu não sabia bem o que falar. Dizer "oi" parecia simples demais. Ela parecia ser tão intensa para esse tipo de coisa. E "oi" era algo tão simples.
- É a minha estação preferida.
   Eu a olhei, surpreso. Ela puxou a conversa. Me senti aliviado e apenas assenti.
- Acho que também gosto dela. - respondi. - Traz esperança.
- E um sentimento bom de renovação. - ela sorriu, me olhando com aqueles grandes olhos castanhos. - As árvores passam o ano inteiro ressecadas pelo sol, tendo suas folhas sendo levadas pelo inverno e ressecadas no outono...
- ... e aí chega a primavera e elas florescem. - completei sua frase.
   Ela estendeu sua mão para mim, a revista sendo totalmente deixada de lado. Falou seu nome baixinho, como se só eu pudesse ouvir. Sorri. Apertei sua mão, sentindo todos os pedaços se juntarem novamente.
   Ela me olhou com um sorriso tranquilo e eu sustentei seu olhar. Talvez renovação fosse a palavra-chave de tudo.

09/08/2016

Bem-vindo à Júpiter


   Hey!
   Esse é o Crônicas de Júpiter, meu novo blog. Para quem já me acompanha, é o antigo blog Lovecats. Mas por que eu mudei?
   Como eu mencionei no último post postado do Lovecats, eu mudei bastante nos últimos 2 anos. Eu havia criado o Lovecats com o intuito de ter um espaço pra falar de tudo o que eu gostava - e era muita coisa. Mas o tempo passou e eu não era mais a mesma Allie do início. A gente aprende muita coisa com o passar do tempo, leva muitos tombos e levanta mais vezes. Eu sou outra Allie desde o início do Lovecats e de repente senti que o blog não acompanhou o meu crescimento. 
   Como o meu objetivo é sempre colocar tudo de mim no que faço, eu decidi remodelar o blog e mudar tudo, até o nome. Me deu uma dorzinha por me desfazer do Lovecats, mas senti que era necessário. Selecionei melhor os assuntos que eu realmente quero falar e sinto que vai dar tudo certo agora, haha.
   Para quem não sabe, meu nome é Aline - mas gosto que me chamem de Allie -, tenho 18 anos (quase 19!!!), pretendo cursar Letras em breve, tenho um gato branco chamado Gregório (e vocês o verão muito por aqui) e tenho muita, muita coisa pra falar.
   O Crônicas de Júpiter vai ser focado em textos e crônicas da minha autoria, fotografias que tiro por aí e vez ou outra algo sobre filmes, porque os amo e preciso de um lugar pra desabafar sobre eles. No geral, vai ser um espaço dedicado ao que mais amo. E também um incentivo maior para eu voltar de vez a fazer o que mais gosto: escrever. Voltei a escrever uma história (que vocês podem conferir clicando na imagem/propaganda ali na barra lateral), mas faz um bom tempo que não volto a escrever meus textinhos que eu tanto gosto e sinto muita falta disso.
Mas por que esse nome?
   Eu escolhi esse nome por dois motivos: Adoro títulos com "Crônicas" no meio, e adoro Júpiter, hahahaha. Achei que seria uma junção legal e bonitinha. Mas admito que o que também ajudou a reforçar a ideia foi uma música que gosto muito, chamada Júpiter, do cantor Silva. Quando pensei no nome do blog, essa música me veio à mente na hora.
   Vocês podem me encontrar em vários lugares como: Facebook, Fanpage, Instagram e tirando fotos aleatórias do céu por aí. E se estiver no tédio e afim de ler algo, por que não dá uma passadinha na minha história? Ela vai adorar ser lida por você. É só clicar aqui e depois me dizer o que achou. ;)
   E por fim, fiquem com uma foto do Gregório, o mascote do blog (e meu bebê). Logo o blog vai estar recheado de crônicas e coisas bonitinhas. <3


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